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Design Hoteleiro: Inovação, Sim. Mas com os Pés no Chão.

Atualizado: 4 de ago.


Hotel Check-in

Design Hoteleiro Inovação Sim Mas com os Pés no Chão

Por Mario Cezar Nogales

 

Há uma nova onda no setor hoteleiro: o design virou protagonista. Não se trata mais apenas da estética dos ambientes, mas de um discurso sofisticado que mistura arte, tecnologia e bem-estar como se fossem ingredientes obrigatórios para qualquer empreendimento moderno. Acontece que, fora do circuito das revistas de arquitetura e dos painéis de tendências, a realidade da hotelaria brasileira ainda se pauta por um velho conhecido: a necessidade de rentabilidade.

 

Enquanto alguns falam em quartos inteligentes que “sentem” o humor do hóspede ou em recepções que mais parecem galerias de arte contemporânea, nós, que estamos no chão da operação, sabemos que o hóspede continua chegando cansado, querendo um bom banho, uma cama limpa e atendimento que funcione. O resto é perfumaria — e das caras.

 

Design de hotel, para mim, precisa ter função. O que adianta criar um espaço lindo se ele é pouco operacional, se não há ergonomia, se o layout obriga o funcionário a dar volta no lobby para servir um café? Ou pior, se o investimento foi tão alto em acabamentos importados que o ROI se torna uma miragem? O design não pode ser vaidade de arquiteto, nem desejo do proprietário que viu um hotel conceitual em Berlim. Ele precisa ser ferramenta de fidelização, de retenção e de conversão. Quando bem aplicado, o design ajuda a vender. Quando mal aplicado, vira custo fixo com ar-condicionado mal dimensionado e manutenção impossível.

 

No mesmo ritmo, a tecnologia vem sendo vendida como solução para todos os males da hotelaria. Automação, check-in por reconhecimento facial, cortinas que se abrem por comando de voz, sensores, telas interativas — tudo isso é bonito em vídeo institucional. Mas, na prática, o que mais vemos são sistemas travando, hóspedes sem conseguir regular a luz do quarto e equipe de manutenção correndo atrás de manuais. A tecnologia certa é aquela que resolve uma dor de operação. A que reduz custo, agiliza processo e melhora a experiência de verdade — e não apenas a percepção do investidor.

 

Também virou lugar-comum falar em sustentabilidade. E é ótimo que esse tema esteja na mesa. Mas o que se vê são muitas ações cosméticas e poucas estratégias reais. Colocar um aviso no banheiro pedindo ao hóspede para reaproveitar toalha não transforma um hotel em sustentável. O que transforma é a adoção de materiais construtivos duráveis, o uso racional de energia, uma política de compras locais e um olhar estratégico para o ciclo de vida dos equipamentos. Ser sustentável custa. Mas não ser, custará muito mais.

 

O discurso do bem-estar, que tomou conta do marketing da hotelaria, também precisa ser compreendido com um pouco mais de ceticismo. Criar suítes voltadas ao sono, menus funcionais, salas de meditação e spas com cromoterapia pode ter seu valor, desde que esteja alinhado ao perfil do público-alvo e ao modelo de negócio. Não é porque um resort na Ásia viralizou com seu “quarto do silêncio” que isso se aplica a um hotel corporativo de médio porte em São José dos Campos.

 

A verdade é uma só: o hotel do futuro precisa continuar gerando margem. A estética importa, mas não sustenta. A inovação é bem-vinda, mas deve vir acompanhada de gestão. E o encantamento do hóspede não pode custar o prejuízo do empreendedor. Portanto, antes de embarcar na próxima tendência importada, o hoteleiro brasileiro precisa fazer a pergunta que nunca sai de moda: isso traz resultado? Se sim, ótimo. Se não, melhor manter o foco no essencial: bem atender, bem operar, e bem lucrar.

 


Mario Cezar Nogales

Este artigo é assinado por Mário Cezar Nogales, foi publicado na Revista Hoteis em 27/06/25 - https://www.revistahoteis.com.br/design-hoteleiro-inovacao-sim-mas-com-os-pes-no-chao/

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