Turismo em alta no Brasil, apesar da crise diplomática com os EUA
- Mario Cezar Nogales
- 23 de ago.
- 4 min de leitura
Turismo em alta no Brasil, apesar da crise diplomática com os EUA

Por Mario Cezar Nogales
As manchetes mais recentes da hotelaria e do turismo internacional revelam um paradoxo digno de nota. Enquanto a diplomacia brasileira enfrenta uma crise sem precedentes com os Estados Unidos — fruto do tarifaço imposto, da aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes e das reações subsequentes do governo Lula —, os números do turismo e da hotelaria não apenas resistem como crescem de maneira robusta.
Estamos diante de um momento histórico em que a percepção externa do Brasil como destino turístico parece descolada da instabilidade política e econômica. Cabe, portanto, uma análise fria, crítica e sem ilusões sobre o que isso significa para o setor hoteleiro.
De um lado, temos um cenário diplomático em ebulição: tarifas de 50% impostas pelos EUA sobre produtos brasileiros, sanções pessoais a um ministro do STF e discursos inflamados de Brasília contra Washington. A narrativa política sugere caos, insegurança e risco para os negócios.
Por outro lado, quando olhamos para os dados concretos do turismo, o resultado surpreende: o Brasil recebeu, apenas no primeiro trimestre de 2025, 3,7 milhões de turistas estrangeiros, um crescimento de 47,8% em relação ao mesmo período de 2024. Entre janeiro e maio, o número saltou para 4,887 milhões, avanço de 49,7%. São recordes históricos que desmontam a tese de que crises diplomáticas necessariamente destroem o fluxo turístico.
Este descolamento é estratégico. Mostra que, no curto prazo, o mercado de viagens e lazer responde menos a movimentos políticos e mais ao desejo reprimido de conhecer o Brasil. Praias, natureza, cultura e megaeventos seguem sendo ativos mais fortes do que a instabilidade institucional.
Não é apenas o fluxo de turistas que cresce. As OTA’s, termômetros antecipados de intenção de compra, já sinalizam tendência de expansão. O Booking.com apontou o Brasil entre os cinco destinos mais buscados do mundo em 2025, com alta de 61% nas intenções de viagem em relação ao ano anterior.
Isso significa algo claro para os hoteleiros: a demanda está aquecida, e o jogo competitivo migra para a capacidade de converter essa intenção em reserva concreta. Quem não estiver preparado para lidar com essa procura — seja via OTA, seja no canal direto — perderá receita em plena maré de alta.
A Rede Ritz, por exemplo, registrou aumento expressivo nas reservas de estrangeiros no início de 2025, especialmente em Maceió. É um retrato fiel do que pode ser conquistado quando se entende que, mesmo em tempos de crise diplomática, o hóspede olha para a experiência e não para o noticiário político.
É fato: o governo Lula aproveitou esse momento para intensificar a promoção internacional do país. Campanhas de marketing, presença em feiras como a FITUR e o programa “Brasis” estão colocando o Brasil na vitrine global de destinos turísticos.
Há, sem dúvida, um mérito nesse esforço de comunicação. Contudo, não podemos cair na ilusão de que é o Estado que garante o sucesso da hotelaria. O que garante reservas, ocupação e crescimento é a ação diária de empresários, gestores e equipes operacionais que entregam hospitalidade de qualidade. A propaganda pode até abrir portas, mas quem fecha negócio é o hotel que atende bem, que entrega valor e que sabe precificar sua oferta.
O cenário é promissor, mas exige cautela. O fato de a crise diplomática ainda não ter impactado o fluxo turístico não significa que ela nunca impactará. Se a escalada comercial entre Brasil e Estados Unidos se intensificar, poderemos sentir reflexos em médio prazo, seja no câmbio, seja na atratividade do Brasil como destino seguro.
Enquanto isso não ocorre, a ordem é clara: aproveitar a maré alta. Ocupar o espaço deixado por destinos concorrentes, converter buscas em reservas, fortalecer canais diretos e negociar de forma mais estratégica com as OTAs.
Este é o momento em que os hotéis precisam pensar como empresas globais. Mais do que nunca, a gestão de hospitalidade deve estar ancorada em visão empresarial, não em discursos de governo. A história ensina: governos passam, ciclos diplomáticos mudam, mas a reputação de um destino e a experiência do hóspede permanecem.
A crise com os Estados Unidos é grave, inédita e potencialmente perigosa para a economia. Mas a hotelaria não pode se paralisar diante disso. O setor precisa ler o que os números mostram: as reservas estão crescendo, o fluxo internacional está batendo recordes e a oportunidade é agora.
Não se trata de ignorar a política, mas de não permitir que ela ofusque o que realmente importa: entregar hospitalidade de excelência, aproveitar o momento de demanda aquecida e consolidar o Brasil como destino turístico global.
Em resumo: enquanto Brasília discute e reage, os hotéis precisam agir. Porque hóspedes não esperam negociações diplomáticas — eles reservam, chegam e consomem. Cabe a nós, gestores da hospitalidade, transformar essa janela de oportunidade em resultados concretos e duradouros.
Mario Cezar Nogales – Consultor especializado em hotelaria, fundador da SN Hotelaria Consultoria Especializada, autor de livros e artigos voltados ao setor hoteleiro.
Saiba mais em: www.snhotelaria.com.br | Contato: mario.nogales@snhotelaria.com.br





